(…) Talvez o fato de ler (e ter que escrever) sobre um livro com uma história tão “estranha” me faça inclusive, entender minha posição no mundo. A do cara sentado na areia, com o olhar fixo no horizonte, mas incapaz de se divertir com a rapaziada que está lá dentro do mar pegando jacaré. A do sujeito que apenas anda sem rumo pelo bairro residencial, mas não consegue sequer tocar a campainha de uma das casas. Por isso, se estiverem passando pela Praia de Pajuçara e virem um sujeito de barba e cabelos brancos vestido com alguma camiseta amarrotada e com alguma bermuda velha, e esse cara estiver sozinho, absorto e olhando o mar como se fosse pela última vez (ou pela primeira vez – creio que é muito parecido), não o incomodem, não falem com ele. Não vale a pena. É só um sujeito confuso, tentando entender o que foi que aconteceu e em que momento de sua vida ele foi atropelado de maneira tão violenta. Ao mesmo tempo você vai perceber que não há nenhuma espécie de ansiedade nesse sujeito, pelo menos não nessa vida. Porque há um tipo de alívio a partir da real constatação. Vai sair um monstro desse nevoeiro. Não tem como evitar. Nenhum tipo de oração pode impedir que isso aconteça.
(…) Passo as tardes em minha kitchenete, lendo muito e assistindo filmes na televisão. Não tenho realmente escrito muito. Apenas algumas anotações esparsas. Nada de mais. Já tenho trabalho a fazer, textos pra escrever, textos pra decorar. Mas ignoro. Passo as tardes recolhido, lendo ou estirado no colchão assistindo filmes. Algumas noites também passo assim. O que é algo novo em minha vida. Sabia que se tivesse ido pro Rio de Janeiro, não conseguiria algo do tipo. Teria bebido como um condenado e estaria esperando alguma espécie de perdão divino, sei lá. Lembro que meu amigo Fauzi Arap uma vez leu meu mapa astral. Eu não ligo muito pra essas coisas. Sou do tipo que cumprimenta cigana mantendo uma distância segura, antes que ela agarre minha mão e comece a fazer previsões terríveis. Lembro de um que leu a minha mão quando jovem e disse que eu não ia durar muito. Bom, eu tô com 46. Se isso não é durar muito, penso que talvez deva conversar mais a sério com alguns amigos penitentes. Não entendo muito bem o que ele quis dizer, sabe como é. Enfim, não converso com meus demônios como faria John Constantine, mas tento embriaga-los sempre que possível. Eles estão por perto. Mas falava do dia que o Fauzi leu meu mapa astral. Como eu disse, não levo muita fé nisso, mas quando um cara como o Fauzi diz algo, prefiro ficar calado e prestar a mó atenção. Já tentei discutir com ele e não deu certo. Qualquer sujeito mais ou menos esperto ficaria quieto, só ouvindo. Eu sou do time dos “menos espertos”, mas ainda assim, prestei a mó atenção. Ele disse que em outra encarnação eu tinha ficado muito tempo isolado, apenas lendo e aprendendo. Deve ser algo parecido com o que fiz nesses últimos dias. Ah, nem tanto assim. Preciso muito desse isolamento e dessa solidão, mas às vezes preciso também daquilo que Reinaldo Moraes disse sobre “mendigar o tumulto“. É isso. Se bem que tenho tido noites pavorosas e inúteis. Não por culpa dos amigos com quem divido o balcão, mas sim por minha genuína intolerância. Quase usei a expressão “desprezível”. Me contive segundos antes. Também tenho pensado nessa busca incessante por conhecimento e sabedoria (?) Ah, eu escrevi mesmo isso. Às vezes tenho ganas sinceras de condenar 90% da minha biblioteca à fogueira. Não tenho a menor dúvida que no máximo 10% dela me causou real prazer. Então porque maltrato meus olhos míopes debruçado sobre um conteúdo improvável no que se refere ao fato de eu levantar sobressaltado da cadeira giratória e correr até a janela, quase como se dissesse: “É isso aí, seu merda, como é que você não pensou nisso antes?”. Já houve fases em minha vida onde eu me sentia totalmente desencantado com literatura. Mas depois eu percebi que eu tava me esforçando além da conta, como quando me empurravam o Machadão pra ler no ginásio. Ah, Capitu, Capitu, como eu tive vontade de te mandar tomar no cu. Literatura não pede esforço, pede prazer, como uma mulher ou como os pés na praia se deixando banhar suavemente. Uma chuva no meio da tarde ou uma taça de vinho no cair da noite. Ou você descobre isso ou pensa que tá desencantado. Volto para meus livros queridos. Mas não tenho mais o mesmo afeto pelo desconhecido, por aquilo que está por vir. Se valer a pena, vai vir. Eu sei que vai. Eu não vou fazer o menor esforço. O que é que muda nesse ano? Só o fato de eu passar a anotar os compromissos numa nova agenda.
(http://atirenodramaturgo.zip.net/)
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