Entradas categorizadas em ‘A ARTE’
palavras que odeio: víscera (como metáfora), sangrar (como metáfora), qualquer procedimento do tipo (des)encontro.
se for pra falar da existência, que seja das moscas, das nominatas, dos pesos de papel. as coisas na sua existência é que nos conformam. escrever simples, dizer o que é comum de forma comum. tentar fazer corriqueiro o que não o é, nunca o contrário. detesto a ideia de que na minha voz fique evidente o esforço. flutuar pelo mundo, leve, leve, leve. por sobre tudo.
(são válidos, no entanto, os joguinhos de palavras, os gracejos.)
Merde de Poète
quem gosta de poesia “visceral”,
ou seja, porca, preguiçosa, lerda,
que vá ao fundo e seja literal,
pedindo ao poeta, em vez de poemas, merda.
(Antonio Cícero)
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li que todo artista está insatisfeito com a produção artística que conhece. que bobagem! se assim fosse, estaríamos condenados a uma arte feita por afobados. como posso estar insatisfeita com a literatura que conheço se na minha estante há muito mais por-ler do que já-lido? se, por um lado, os problemas humanos se repetem ao longo da história, por outro, eu mesma já disse aqui da minha busca pela forma de tratar do hoje com relevância. mas também não é que esteja insatisfeita com as interpretações que o kafka oferece para o nosso estar no mundo. é que o nosso estar no mundo daqui, de porto alegre, fim de uma tarde de janeiro de 2009, é um pouco diferente daquele do kafka em praga, ainda que possa incluí-lo. mesmo assim, o mal-estar talvez seja igual. e até quem sabe o bem-estar. é a realidade que causa insatisfação no artista.
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algumas horas depois de escrever o post anterior, estou com minha amiga luisa com S e sem acento, e mostro pra ela a minha mais nova aquisição literária: um livro do paulo leminski. aí abro numa página qualquer, e dou com isso:
Uma poesia ártica,
claro, é isso que eu desejo.
Uma prática pálida,
três versos de gelo.
Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não. Nenhuma.
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?).
Sim, inverno, estamos vivos.
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parece haver uma saturação de um modelo de questionamento da vida contemporânea nas artes, principalmente em se tratando de teatro, cinema e literatura. são sempre personagens ‘ordinários’, fazendo coisas do ‘cotidiano’, extremamente ’simples’. no meio de tudo isso, dizem as sinopses, as orelhas, as críticas, ’surge o inesperado’, ‘o não visto’. uma família absolutamente ‘comum’, ‘normal’, no dia-a-dia da qual aflora o drama da existência. a perversão da normalidade, os deslocamentos de sentido. enredos assim, papos assim, que eu mesma também canso de ter.
tá, e aí?
cortázar já tratava disso tudo com maestria desde os anos 50, alcançando talvez o ápice em ‘histórias de cronópios e de famas’.
tenho me debatido muito ultimamente pensando nessa problemática. sobre o que vale a pena falar hoje, aqui, nesse nosso mundo? de que forma? com que intenção? para quem? por quê?
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