Entradas categorizadas em ‘opinião/crítica’
todo mundo sabe que sou uma depressiva persistente, logo não será surpresa minha apreciação de ‘cão sem dono’, o filme baseado no romance ‘até o dia em que o cão morreu’, do daniel galera. até agora não tinha visto, um pouco por querer ler o livro primeiro. esqueci disso e chamei na locadora ontem.
achei bem duro, mesmo com a suposta recuperação: depois de muito debater-se contra as circunstâncias, esquivando-se até do amor por uma mulher que de fato ama, o personagem vai trabalhar numa livraria, de uniforme e tudo. joga futebol, cultiva a vida familiar, dá nome ao cachorro. e alguns chamam a isso redenção! a recuperação não é senão a prova de que, no máximo, resta o ciclo: conformar-se, esforçar-se, cegar-se. até que enxerga-se de novo, e então rebelar-se, sofrer muito, chegar ao limite. por fim, conformar-se. o vazio não está na falta de opção mas na sua irrelevância. traduzir uma lauda a um real e cinqüenta, trabalhar numa linha de produção de peças automotivas, auxiliar os clientes a encontrar o livro nas prateleiras: qual é a diferença?
ao fim, a namorada do rapaz do filme liga e o convida a ir para barcelona. oh, viajar, o grande sonho dos meus ex-colegas da letras. ter a sensação de que se está indo a alguma parte. de fato, nada desprezível. tampouco há lugar em que se possa encontrar opção a essa vida de produzir e gastar. quem viveu num país onde o capitalismo deu certo sabe disso melhor que ninguém. o verdadeiro vazio é ser livre pra comprar a roupa que todo mundo compra.
Categorias: assuntos sérios · cinema · contemporaneidade · eu · opinião/crítica · teorizando
Texto: de Antônio Abujamra (inspirado nas obras de Samuel Beckett)
Interpretação: Antônio Abujamra
Elenco: Antonio Abujamra, Miguel Hernandez, Nathália Corrêa
Direção: Antonio Abujamra e Hugo Roda
vai-se para ver o abujamra, porque é sobre o beckett. vai-se embora tendo visto abujamra falando sobre beckett. legal, é bom entrar em contato com o beckett, eu gosto, e o abujamra é um cara interessante, mas é isso, menos de uma hora e se está em casa, a vida continua igual, mas foi bom.
Categorias: opinião/crítica · teatro
Criação e direção: loscorderos.sc
Elenco: David Climent e Pablo Molinero
Duração: 55 minutos
teatro físico, com tudo que isso implica: imagens incríveis, uma experiência visual intensa mas, pra mim, uma certa frieza. porque ficam lá os atores apresentando as mais incríveis partituras corporais, aquela música altíssima, subindo em mesas, fumando cigarros em posições improváveis, correndo e colocando e tirando roupa etc. não deixa de ser bonito, empolgante, energético, fresco. mas não me tocou. falta toda essa excelência estar subordinada a um projeto poético que se realize e não fique apenas sugerido.
Categorias: opinião/crítica · teatro
Direção e dramaturgia: Grace Passô
Elenco: Gustavo Bones, Marcelo Castro, Paulo Azevedo, Grace Passô e Renata Cabral (atriz convidada)
Duração: 1 hora
um viva ao texto de grace passô! dois vivas às dramaturgias originais! três vivas ao grupo espanca!!
o sublime me deixa irracional.
tão mais fácil falar daquilo que é ruim…
por elise, cuidado com aquilo que planta!
por elise, espanca doce!
por elise, eu vou cuidar do seu jardim!
Categorias: opinião/crítica · teatro
Direção: Rita Clemente
Dramaturgia: Grace Passô
Elenco: Grace Passô, Gustavo Bones, Marcelo Castro, Paulo Azevedo e Mariana Maioline (atriz convidada)
Duração: 1h
lendo a sinopse, fiquei desconfiada: mais uma peça que “narra a história de uma família aparentemente comum, com pai, mãe e filhos, parte de situações bem corriqueiras, atitudes como não dormir bem, esquecer as chaves de casa, preparar o café, deixar a torneira aberta e cuidar de um animal doméstico” (palavras da divulgação). desconfiei porque isso me faz pensar em vera karam, o que me deprime.
o cliché era provável, mas o meu irmão me convenceu de que a peça era imperdível, e acabei comprando ingresso.
a peça foi imperdível porque existe uma grande diferença entre teatro e televisão, entre poesia e pirotecnia, entre o fantástico e o fantasioso. e quem a faz sabe disso. sabe que contar uma história não é contar uma história, ainda que seja. que, na falta do que fazer, só sapateando. e outras coisas assim, de um terreno indizível, e por isso me calo pra não falar bobagem só porque tenho que falar alguma coisa.
não tenho que falar nada, isso não é uma crítica, é uma declaração de amor.
eu amo o grupo espanca!!
Categorias: opinião/crítica · teatro
Autor: Friedrich Schiller
Adaptação e direção: José Celso Martinez Corrêa
Elenco: Marcelo Drummond, Aury Porto, Ricardo Bittencourt, Sylvia Prado, Camila Mota, Vera Barreto Leite, Lucas Weglinski, Ariclenes Barroso, Márcio Telles, Guilherme Calzavara, Adriana Viegas, Célia Nascimento, Ana Gui, Juliane Elting, Naomy Scholling, Antero Montenegro, Fred Steffen, Hector Othon, Gabriel Fernandes
não por ter sido ótima, mas por ser muito importante, é impossível comparar essa peça com qualquer outra presente no festival. zé celso e seu teatro oficina não podem ser analisados ordinariamente. eles estão fora do concurso.
tratou-se sobretudo de uma celebração, uma festa, uma farra. o importante ali não era o enredo ou as interpretações, mas sim o prazer de encenar e manter vivo o teatro, fazendo dessa a mais dionisíaca das artes.
a montagem de ‘os bandidos’ idealizada por zé celso poderia ser descrita como uma guerra declarada a apollo, revivida e reafirmadora da devoção de seus participantes a dionísio durante seis horas a cada apresentação. uma profissão de fé.
cheia de excessos, com muitas piadas sem graça, longa além do aceitável, com bandos de gente pelada, tudo assim um tanto quanto antigo, devemos admitir, um tanto quanto literal demais. válido, no entanto, como lembrança de um entusiasmo em extinção.
Categorias: opinião/crítica · teatro
Músicos: Zé Miguel Wisnik (piano e voz), Celso Sim (voz), Nailor Proveta (sopros), Arthur Nestrovski (violão), Swami Jr. (violão de 7 cordas e baixo), Marcelo Jeneci (teclados e acordeon) e Sérgio Reze (percussão)
Duração: 1h30min
lovely, a palavra é essa pra descrever um show que faz a gente acreditar que a delicadeza não está perdida.
zé miguel é um príncipe, seus músicos são ótimos, um deles um nnnngato, o repertório é poético e ainda por cima cantou “o tempo não apagou”, do paulinho da viola.
pra quem não foi: BURRO!
sem mais.
Categorias: música · opinião/crítica
Texto, direção e bailarina: Alessandra Colasanti
Participação extraordinária: João Velho, como punk concertista
Duração: 1h10min
aqui temos o que se pode chamar de um espetáculo pós-moderno. que debocha disso, é claro.
alessandra colassanti interpreta uma bailarina saída de um quadro de degas que é muito entendida de algum assunto da mais alta importância acadêmica, apenas não estando claro exatamente qual. a peça é uma falsa palestra dessa bailarina, com participações de seu namorado, “um punk concertista” (palavras da divulgação), interpretado pelo filho do peréio com a ciça guimarães, joão velho (aquele a quem o pai não pagava pensão alimentícia, levando a mãe a colocá-lo na cadeia).
ri-se de gargalhar do começo ao fim. qualquer um que já tenha feito uma faculdade reconhece nessa paródia as bobagens que já foi obrigado a ouvir de algum professor, os trejeitos e maneirismos de “intelectual”, o jargão, as frases feitas etc.
fazendo um pastiche de foucault, derrida, deleuze, baudrillart, nietzche e quem mais couber, a palestrante fala sobre coisa nenhuma fazendo perguntas retóricas do tipo ‘o que é o discurso?’, contando histórias suas envolvendo personagens culturais importantes, como stockhausen (que compôs pra ela 4′33, a música de quatro minutos e trinta e três segundos do som que estiver acontecendo durante esse tempo), abusando de procedimentos meta-lingüísticos, chamando o namorado para tocar air guitar, passando vídeos num telão onde se vê multidões tirando foto da monalisa dentro do louvre , e por aí vai.
sacada muito pertinente a de alessandra colassanti, sem dúvida fruto de uma pesquisa considerável. o teatro brasileiro dá mostra de estar ligado no que acontece na cena cultural além de seus domínios. ‘anticlássico’ não deixa de ser um tipo de teatro engajado, ainda que nos nossos dias a expressão não pegue bem.
Categorias: contemporaneidade · opinião/crítica · teatro
Autor: Ésquilo
Tradução: Heiner Müller
Direção: Dimiter Gotscheff
Elenco: Samuel Finzi, Wolfran Koch, Almut Zilcher e Margit Bendokat
Duração: 1h40min
a montagem alemã de os persas foi tremendamente prejudicada pelo fato de que nós, público do porto alegre em cena, não entendemos alemão. já é difícil não se entediar um pouco com a linguagem de uma tragédia grega, especialmente em se tratando de ésquilo. em alemão, com legendas posicionadas muito acima da altura saudável para o pescoço, fica realmente complicado.
ainda bem que teatro não é só palavra e esse espetáculo é prova disso. como já disse antes, tenho me perguntado até que ponto me interessam os textos clássicos em peças realizadas para apresentá-los a quem não os conhece. assim, foi com alegria que vi entrarem os primeiros atores no palco dividido apenas por uma parede móvel, e com verdadeira felicidade que assisti os personagens um a um irem se apresentando, vestidos feito gente de hoje, fazendo movimentos mínimos e quase nunca trocando olhares entre si. uma tragédia minimalista, austera e cinza contando a história de uma guerra sangrenta sem precisar mostrar sangue.
Categorias: opinião/crítica · teatro