Entradas categorizadas em ‘teorizando’
palavras que odeio: víscera (como metáfora), sangrar (como metáfora), qualquer procedimento do tipo (des)encontro.
se for pra falar da existência, que seja das moscas, das nominatas, dos pesos de papel. as coisas na sua existência é que nos conformam. escrever simples, dizer o que é comum de forma comum. tentar fazer corriqueiro o que não o é, nunca o contrário. detesto a ideia de que na minha voz fique evidente o esforço. flutuar pelo mundo, leve, leve, leve. por sobre tudo.
(são válidos, no entanto, os joguinhos de palavras, os gracejos.)
Merde de Poète
quem gosta de poesia “visceral”,
ou seja, porca, preguiçosa, lerda,
que vá ao fundo e seja literal,
pedindo ao poeta, em vez de poemas, merda.
(Antonio Cícero)
Categorias: A ARTE · eu · pequenas ideias · teorizando
todo mundo sabe que sou uma depressiva persistente, logo não será surpresa minha apreciação de ‘cão sem dono’, o filme baseado no romance ‘até o dia em que o cão morreu’, do daniel galera. até agora não tinha visto, um pouco por querer ler o livro primeiro. esqueci disso e chamei na locadora ontem.
achei bem duro, mesmo com a suposta recuperação: depois de muito debater-se contra as circunstâncias, esquivando-se até do amor por uma mulher que de fato ama, o personagem vai trabalhar numa livraria, de uniforme e tudo. joga futebol, cultiva a vida familiar, dá nome ao cachorro. e alguns chamam a isso redenção! a recuperação não é senão a prova de que, no máximo, resta o ciclo: conformar-se, esforçar-se, cegar-se. até que enxerga-se de novo, e então rebelar-se, sofrer muito, chegar ao limite. por fim, conformar-se. o vazio não está na falta de opção mas na sua irrelevância. traduzir uma lauda a um real e cinqüenta, trabalhar numa linha de produção de peças automotivas, auxiliar os clientes a encontrar o livro nas prateleiras: qual é a diferença?
ao fim, a namorada do rapaz do filme liga e o convida a ir para barcelona. oh, viajar, o grande sonho dos meus ex-colegas da letras. ter a sensação de que se está indo a alguma parte. de fato, nada desprezível. tampouco há lugar em que se possa encontrar opção a essa vida de produzir e gastar. quem viveu num país onde o capitalismo deu certo sabe disso melhor que ninguém. o verdadeiro vazio é ser livre pra comprar a roupa que todo mundo compra.
Categorias: assuntos sérios · cinema · contemporaneidade · eu · opinião/crítica · teorizando
ando numas de achar que tenho que fazer uma tatuagem com as palavras ‘forever young’. ontem foi meu aniversário, e chorei. descobri que ser jovem é muito importante pra mim. bobagem, mas pra mim não é. vinte e seis anos doem no meu coração.
a tatuagem, bom, só tem um problema. é que sabemos que vou envelhecer, cedo ou tarde. e fico imaginando que olhar no corpo uma marca tão definitiva do desejo de ser jovem deve doer ainda mais que fazer vinte e seis anos.
que fique claro que quando digo envelhecer, não é de rugas que tenho pavor, nem do cair das peles, nem mesmo da perda de vigor físico. o problema é ficar mesmo velha, cheia de responsabilidades, imobilizada, presa a uma vida qualquer, uma só.
vinte e seis, sixty four, will you still be sending me a valentine?, é tudo uma questão parecida no fim das contas.
Categorias: eu · teorizando
parece haver uma saturação de um modelo de questionamento da vida contemporânea nas artes, principalmente em se tratando de teatro, cinema e literatura. são sempre personagens ‘ordinários’, fazendo coisas do ‘cotidiano’, extremamente ’simples’. no meio de tudo isso, dizem as sinopses, as orelhas, as críticas, ’surge o inesperado’, ‘o não visto’. uma família absolutamente ‘comum’, ‘normal’, no dia-a-dia da qual aflora o drama da existência. a perversão da normalidade, os deslocamentos de sentido. enredos assim, papos assim, que eu mesma também canso de ter.
tá, e aí?
cortázar já tratava disso tudo com maestria desde os anos 50, alcançando talvez o ápice em ‘histórias de cronópios e de famas’.
tenho me debatido muito ultimamente pensando nessa problemática. sobre o que vale a pena falar hoje, aqui, nesse nosso mundo? de que forma? com que intenção? para quem? por quê?
Categorias: A ARTE · perguntas aflitivas · teorizando
nada me marcou nos últimos tempos com tamanha força quanto a descoberta de uma doença cujo portador desmaia quando sente. é a cataplexia. na verdade, trata-se de um relaxamento muscular tão extremo a ponto de deixar a pessoa imobilizada, ainda que consciente. emoções desencadeiam essa reação: raiva, alegria, medo, dor, orgasmo, riso, tristeza. qualquer emoção importante. a doença está intimamente associada a outra, a narcolepsia – pessoas que acordaram dentro de um caixão porque pareciam mortas, aquele horror todo.
então eu saio da cama de manhã um belo dia, vou até a sala e encontro uma surpresa do meu namorado, umas flores em cima da mesa, digamos. caio. fico paralisada por alguns minutos, depois levanto. acontece que não posso nem pensar no que acaba de ocorrer, temer que se repita, pois isso já desencadearia outro colapso. ter cataplexia exige o controle absoluto, o apagamento de tudo o que faz de alguém mais que um corpo dotado de força muscular e cognição.
é o ser humano do futuro. se é preciso reduzir-se a músculo e racionalidade, resta ser produtivo e útil. cataplexia, a solução final, a perfeita medida que teria salvo gregor samsa, da metamorfose, de virar inseto. acaba a opção inseto com essa doença, o parasitismo está erradicado. fraquejar é proibido. a engrenagem está salva.
uma problemática assim bem dos nossos dias, essa da cataplexia.
Categorias: contemporaneidade · grandes descobertas · teorizando